Outdoors
Depois de um mês em São Paulo, tentando arrumar um emprego e vendo a realidade que me circulava no bairro onde eu fiquei esse tempo, acabei escrevendo esse texto, pra mostrar como as pessoas vivem de aparência, como um tênis de marca vale mais que uma boa alimentação...
O dia começou como propaganda de margarina. Ela lavou os cabelos com o shampoo para cabelos neutros, que viu na propaganda repetida depois da novela das oito. Vestiu a imitação da saia que a protagonista da mesma novela vestia. Tomou o leite do outdoor, esquentou o pão na griil vendida no momento merchandising do programa de variedades e ouviu a trilha sonora do seriado da tv a cabo. Ela era outdoor, catálogo Hermes, vestia meias Vivarina e usava o gloss da Avon.
Trabalhava oito horas por dia. O trabalho a consumia para ela poder consumir. Passava os domingos no shopping center? trabalhando. Cada corpo que entrava na loja era um desejo dela de ter-ser. Um relógio no pulso da perua blond, um sapato bico fino no pé da filha da blond, o cartão de crédito do marido da platinada. A carne eram as páginas das revistas que se mexiam gritando ?compre-consuma? e ela comendo miojo para sobrar para o corte de cabelo no salão vip da cidade.
À noite chegava em casa, o corpo todo desfazendo-se em cansaço. Ligava a televisão e engolia, junto com o macarrão instantâneo, as novidades-lançamentos, moda em roupa-sapatos-barrigas-cabelos. Se não dava para comprar o original, comprava o genérico ou se endividava em três anos para pagar o que usaria por um mês. Mulher-cartão-de-crédito. O dinheiro não dava. Agiota, fome, juros, nome sujo na praça. Salário de balconista, dividido em contas e comida. Comprou um jornal no centro da cidade. Um emprego noturno talvez. Lanchonete, restaurante. Alguma coisa podia servir para ter mais dinheiro no fim do mês. Passava os olhos nas páginas e lembrava dos vestidos, saltos e bolsas e da trilha internacional da novela das oito, que ela precisava comprar. Circulou algumas possibilidades, mas sua experiência era apenas a de balconista. Funil, querida, funil. Esprema-se. Esprema-se. Esperma-se.
Vejo a menina-cartão-de-crédito meses depois. Em vez de procurar no jornal, ela virou classificado. ?Loira, coxas grossas, peitos fartos. Privê. Realizando todas suas fantasias. Disque xxx?. Menina de corte de cabelo da moda, esmalte brilhante, óculos de sol-500-reais, vestidinho-boutique, as colegas também balconistas sem entender como. Algumas apostando em desvios de caixa, outras apostando em coroa cheio da grana. Menina-cartão-de-crédito continua balconista para a família do interior e consome-se em gozo fingido e chupadas para garantir os outdoors do mês. E por dentro só chamas. E por dentro só pó. Consumindo.
Essa foi a conclusão... depois de muito analisar e conviver com essas pessoas, descobri que ainda bem que não ligo pra essas coisas... e também que é muito difícil conviver com quem é assim... me sentia fora do grupo deles... não conseguia me ver no mesmo grupo... não conseguia me ver usando aquelas coisas... gstando aquelas fortunas pra manter uma aparência falsa...
nem que eu tivesse conseguido o emprego eu num me igualaria a eles...
a busca por um emprego continua... mas pra manter minha liberdade... e não pra me fazer escrava ainda mais!!
Um beijo e um sorriso...

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