A vida vivida intensamente...

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Tetraplegismo

As paredes do quarto eram os limites do mundo dela. Os sons eram apenas Elton John na vitrola da irmã e os gritos esparsos do bem-te-vi na janela. O dia eram rabiscos feitos na vida que escorria na cadeira.
À noite, a alma dela acendia. O barulho da chave dele na fechadura trazia vida ao seu corpo. A boca recriava na sua o amor que lhe devolvia a ilusão de movimentos. Os olhos dela contavam-lhe das saudades. A voz dele trazia-lhe a vida lá de fora. O calor do corpo dele na cama ressuscitava-lhe a esperança. E ela voltava a acreditar nos seus sonhos.
Uma noite ele não voltou. O dia nunca mais nasceu. Nada lhe sobrou. Nem a opção de apagar as estrelas que, dentro da moldura da janela, teimavam em continuar brilhando.

QUANDO
a casa está silenciosa o barulho da geladeira fica assustador parece que estou naqueles filmes de suspense que o diretor dispensa a trilha sonora convencional colocando um brulho seco que aumenta quando se aproxima o ápice da trama vou ao meu quarto ligo o ventilador as janelas se fecham outro pensamento surgirá...


UTILIDADE PÚBLICA:

Recesso

"A banda Los Hermanos comunica a decisão de entrar em recesso por tempo indeterminado.
Por conta disso, não há previsão de lançamento de um novo disco.A pausa atende a necessidade dos integrantes de se dedicarem a outras atividades que vieram se acumulando ao longo desses dez anos de trabalho ininterrupto em conjunto.

Não houve desentendimento ou discordância que tenha afetado nossa amizade, tanto que continuamos jogando truco toda quinta-feira.Por conta dessa decisão, mesmo após o término da turnê do "4", resolvemos fazer duas únicas apresentações no Rio de Janeiro, na Fundição Progresso nos dias 8 e 9 de junho. Até lá."
www.loshermanos.com.br


Por que todas as bandas que eu gosto resolvem parar??!!
ai ai ai...
eles merecem férias (assim como todo mundo), mas vão fazer falta!
mas já dizia a música "todo carnaval tem seu fim, e é o fim, e é o fim!"

Um beijo e um sorriso...

sábado, 21 de abril de 2007

Cacos, costumes e dor...

Juntei o meu rosto, transformado em cacos - pedaços caídos sobre o chão do quarto. Juntei o meu rosto, com pá e vassoura, um pouco depois do espelho quebrado. Da imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. Recolhi os pedaços de mim, espalhados sobre o tapete, antes de querer me olhar mais uma vez. Antes de não encontrar o reflexo. Juntei o meu rosto, transformado em cacos, antes do desespero de não me enxergar no meio da moldura dourada - sobrevivente pregada na parede do quarto.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma...
Doeu. Doeu como corte no dedo e álcool depois. Como caco no pé e alguns passos pra frente. Como espinho sem querer na tentação de arrancar a flor. Doeu como lábio mordido por dentro. Como dedo batido na quina. Como soco no estômago. Puxão de cabelo. Como queda de escada. Arranhão. Pancada. Doeu como fratura exposta. Inflamação. Como gelado descendo na dor de garganta. Doeu como tapa de mãe quando se é pequeno. Como soco na cara. Mão na tomada. Parto natural.
Doeu muito mais do que você imaginava. Mais do que eu imaginava.... mas a gente se acostuma... e a vida continua!

E o sol vem nascendo!

Um beijo e um sorriso...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Carta enviada de Mim Mesma para Você Mesmo:

Meu caro amigo,

Escrevo-lhe esta carta numa garrafa porque não encontrei meio melhor. Estar onde estou implica soluções drásticas. Eu, que nem sempre descubro estar à vontade comigo mesma, me descubro sozinha no mundo que demorei a construir. E aqui governo sobre Mim Mesma. Não sou mais a pessoa que você conheceu, sinto muito, pois tudo tem um fim e um começo. Até as garrafas, as de vidro, sabe, elas são retornáveis. De certa forma eu retornei para Mim Mesma. Aqui não tem garrafas retornáveis. De retornável já basta eu.

Mim Mesma é um lugar que você terá dificuldades de encontrar, por você estar tanto tempo em Você Mesmo. Lugar complicado esse que escolheu para ficar. Ouvi muito falar que aí há muitos conflitos. Que tipo de conflitos são esses? Ideológicos? Sentimentais? São daqueles que fazem chover por dias, com suas lágrimas? Tomara que não haja esgotos entupidos aí. Seria insuportável ver tudo se alagando. Eu que sofro um pouco em Mim Mesma, quando tudo se alaga aqui, porque tenho que tirar toda a água sozinha. O maior calvário é quando meu piano se molha, por causa de sua frágil madeira, que demora a secar. Sim! Tem muita melodia onde estou! Pra falar a verdade só tem isso aqui. Muitas músicas e um instrumento. Pianos não são retornáveis, por serem pesados e solitários. O piano é solitário, não suas teclas. Elas são o oposto do que habitam. Eu as entendo. Este é um instrumento tão nobre até. Já foi muito tocado por príncipes e eu brinco de música sempre com ele. De fato não sou nenhuma princesa. Por isso não estava à vontade. Por isso retornei para cá. Eu tinha muitos pensamentos maquiavélicos. Você não. Acho que em Você Mesmo deve ter algo bom que em Mim Mesma não tenha.

O que eu poderia encontrar no lugar onde você se encontra? O que tem aí em Você Mesmo? Tem muita festa? Muitas garrafas retornáveis? Tem música? Ou só tem enchente mesmo? Tipo aquelas que vimos antes de irmos embora de Nós Mesmos.

Éramos bem felizes em Nós Mesmos. Tenho lembranças agradáveis de lá. Das bebidas que tomávamos até que as garrafas ficassem pesadas demais para as nossas entorpecidas mãos! Tem garrafas aí em Você Mesmo? Acho que sim. Você as usa para tirar água da enchente? Seria de bom improviso. Mas pior que as águas tempestuosas de Nós Mesmos nunca houve. Usávamos as garrafas. Lembra? Para tirar tudo. Toda a água, todos os males, todos os vícios, mas só ficava a embriaguez. Entornada. Como as garrafas. Nos divertíamos tanto que ficávamos tontos de tanto usá-las. Nós tínhamos resistência, mas mesmo assim, às veses, era inevitável. Eu ria e as botava no engradado para retornarem. Só que da última vez eu peguei carona. Eu me deixei mudar com elas. Estou bem diferente. Estou cheia de álcool. Mereci retornar para Mim Mesma.

Tenho até meus planos maquiavélicos, amorais, para retornar a Nós Mesmos. Faltam tantos escrúpulos em mim que sou capaz de destruir tudo que está ao meu redor. Não me importo. E daria tão pouco trabalho, já que aqui é tão pequeno. Nem deve ser muito menor que Você Mesmo. Eu retornaria, com certeza, admito. Mas as garrafas não. Não as quero mais. Daqui só levarei meu piano. Ele foi a melhor coisa que já apareceu por aqui. E é para isso que na verdade lhe escrevo esta carta. Peço que me ajude a levar o piano de Mim Mesma para qualquer lugar, desde que seja bem longe de Nós Mesmos. Preciso de um lugar cuja diversão seja garantida. Lugar que me faça não pensar em Nós Mesmos. E juro também que não terá enchente, já que não haverá conflitos. Retorna-me esta carta? Siga o bom exemplo das garrafas.

Um grande abraço do sua amiga que retorna.

domingo, 8 de abril de 2007

I Just Want You

Se você quer ter o que nunca teve, tem que fazer o que nunca fez!
E eu estou aqui pensando, pensando e pensando... Até a amizade colorida tem limite, não tem?
Tipo: pega, agarra, beija, amassa e depois, quem sabe, pede desculpas. Simples. E gostoso.
É possivel viciar em alguém? Mas vício mesmo. Daquele que você não consegue respirar... Daquele que você suga todas as forças para não parar de pensar... E pensa em tocar. E pensa em beijar. E pensa em amar. E pensa que nao quer que seja de mais ninguem, além de seu. Aquela coisinha, linda...
Daí ninguém fala nada. E eu tô deixando a vida me levar, porque... se aparecer na minha frente...
Porque eu gosto de caras legais, sabe? E gosto de caras que tenham amigos legais também. E que gostem de música... Ah.. Que gostem muito de música. E que gostem de escrever... principalmente poemas. E sejam simples. Bem simples.
Gosto de caras que ja tenham tomado uma cerveja no por-do-sol e nao sintam asco do bar.
Gosto de caras que tenham um sorriso bonito. Gosto da miscigenação... Gosto do que é gostoso.
As vezes até prefiro que não tenham carro, só para poder caminhar um pouco mais.
Gosto de caras engraçados... sabe aqueles que me fazem rir o tempo todo e de tudo?
Gosto de caras que saibam conversar... Que me ensine além.
Gosto de caras que sejam ótimos tios.. Babões mesmo, sabe? Provavelmente serão bons pais também.
Gosto de caras que respeitem os pais e saibam o valor da familia... Acho que todos deveriam saber. Infelizmente nao é assim... (eu mesma às vezes me esqueço valor!!)
Gosto de caras que tenham planos e queira não só compartilhá-los comigo mas deixar que eu faça parte deles.

Será que sou uma ladra de sonhos? Não. Não...

Eu gosto de você... Você. você. você...

E melhor que isso, foi ouvir agora.. I Just Want You (Ozzy Osbourne)...

"Não existem portas que não podem ser destrancadas.
Não existem guerras que não podem ser vencidas.
Não existem erros que não podem ser consertados ou canções que não podem ser cantadas.
Não existem conflitos invencíveis, não exitem deuses acreditáveis
Não existem nomes não nomeados.

Não existem sonhos impossíveis, não existem costuras invisíveis.
Toda noite quando o dia termina, eu não peço muito: Só quero você

Não existem crimes não criminosos, não existem rimas que não podem ser rimadas
Não existem gêmeos idênticos ou pecados perdoáveis.
Não existem mals incuráveis e não existem emoções que não podem ser destruídas

Estou de saco cheio de estar de saco cheio. Costumava ir para a cama ligada.
Não existem metas que não podem ser alcançadas, não existem almas que não podem ser salvas.
Não existem reis ou rainhas legítimos.
Não existem verdades indiscutíveis e não existe a fonte da juventude.

Toda noite, quando o dia termina, eu não peço muito: Só quero você"


"Sou talvez a visão que alguém sonhou, alguém que veio ao mundo pra me ver e que na vida nunca me encontrou."


Juras que não são juras, promessas que não são promessas , beijos que talvez não sejam beijos, sejam chupões que a vida dá para imprimir em mim a sua marca, para coagular meu coração e gargalhar da minha desgraça...
Não, não estou deprimida, estou lutando contra essas vaidades da vida... Que talvez não sejam da vida, e sim minhas próprias vaidades... ou de todos... Pois tudo nesse mundo é vaidade...

A própria vida é vaidosa e é essa vaidade, esses caprichos que me incomodam.
Nos reserva beijos de amor, que nos cegam, nos entorpecem, pra quê?
Para nos sentirmos idiotas, os mais idiotas...
E é isso que a vida quer, alimentar seu ego, a nossa desgraça, rir da nossa cara, tombada...
Já não acredito que talvez exista um amor que não faça sofrer e proporcione prazer, que me faça feliz... Ou os últimos acontecimentos tem me feito desacreditar nesse amor...
Só se esse amor, por um desses caprichos da vida, nunca me encontrou...


Um beijo e um sorriso...

terça-feira, 3 de abril de 2007

Lâmina...


e quando menos se espera, acontece uma outra vez. palavras. promessas. tapete vermelho, estendido por metros, tornando o chão macio. sem obstáculos. maquiando a terra, imunda, que existe por baixo dos sapatos. sempre assim. de repente. quando menos se espera, o caminho, que parecia levar para um lado, oferece outro fim. morro por isso. mais uma vez. por acreditar no que havia me garantido. mentiras entre sorrisos. morro mais uma vez por não imaginar que suas mãos me traziam até aqui. guilhotina. cabeça apoiada, mãos acorrentadas, morro mais uma vez com a queda repentina desta lâmina. golpe que me divide em duas metades...
porque, há muito, eu erro a mão. a dose. esqueço a receita do equilíbrio. o quanto uso das partes que brigam dentro de mim. há muito, eu me confundo. porque metade não tem medo e levanta os braços, na descida da montanha-russa. olhos abertos, enquanto outra acha melhor enfrentar a queda com as mãos na barra. segurando forte. espremendo os dois olhos, fechados, desde o começo do percurso. metade prefere brincar na beira da praia. no raso. enquanto outra não vê problemas em pular dezenas de ondas e nadar onde a pequena bandeira vermelha, agitada pelo vento, avisa sobre o risco. sobre o possível afogamento. porque, há muito, eu erro a receita do equilíbrio. uso a parte que não deveria na hora em que não poderia. me confundo com as metades que brigam dentro de mim. porque parte acelera na estrada, no momento da curva fechada. pé direito até o fim, enquanto outra freia, bruscamente, ao ver a primeira placa. seta torta, avisando sobre o perigo. metade não suporta a burrice, a pequenez, a lerdeza. outra, sempre calada, tolera a banalidade. engole a ignorância. convive com a mediocridade. há muito, eu erro a mão. a dose. me confundo com o que devo usar. porque metade briga. explode. dedo apontado na cara, enquanto outra se recolhe, quieta, debaixo da cama. no quarto fechado. no tudo escuro. metade berra. outra sussurra. tenho uma parte que acredita em finais felizes. em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado. tenho uma metade que mente, trai, engana. outra que só conhece a verdade. uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. outra que sobrevive sozinha. metade auto-suficiente. mas, há muito, eu erro a mão. a dose. esqueço a receita do equilíbrio. me perco. há dias em que uso a metade que não poderia. dias em que me arrependo de ter usado a que não gostaria. porque elas brigam dentro de mim, as metades. há algumas mais fortes. outras ferozes. há partes quase indomáveis. metades que me fazem sofrer nessa luta diária. do não deixar que uma mate a outra. porque uma metade de mim acredita que é por saber como tudo termina na minha vida, quer abandonar esta história por aqui. incompleta. eu, hoje, dividida entre as duas metades, tenho medo de cortar dois pontos dessas nossas reticências e deixar apenas um. o final. mas minha outra metade ainda insiste em acreditar que um dia, quem sabe pode dar certo.

então fica assim... tudo certo, mas nada combinado!

Próximo..

E eu só queria te mostrar o outro lado.
E eu só queria te dizer a verade
E eu só queria mostrar como você poderia ser feliz..

E eu só queria o maldito garoto de franja e óculos na qual deposito minhas emoções diárias
E por todo lado vejo que aprendi a caminhar com você

agora? juntos?


Um beijo e um sorriso...