Última cena
Amor: O melhor sentimento humano." Esta definição ampla não diz quase nada, mas deve estar na mente de qualquer um que queira definir o amor. Penso que o amor é a fascinação natural que os seres humanos sentem um pelo outro. A única vez que isso costuma ocorrer, porém, é na infância. Não precisa ser assim, mas é. Lembram-se? As brincadeiras eram descobertas, e tanto melhor se fossem com alguém. Tudo era importante, ora catastrófico, ora magnífico! Crianças não se constrangem, não se fecham, entregam-se espontaneamente às relações, que tornam-se amizades intensas em um piscar de olhos! Se fosse PERMITIDO, estas crianças tornariam-se adultas com o entusiasmo intacto. Mas existe algo chamado sociedade. Controle.
Não demora somos expostos à Igreja e ao Colégio. A família sedimenta a doutrinação de ambos. Ganhamos vergonha e culpa, a princípio. Logo a curiosidade que nos movia para tudo será desencorajada. Dogmas com verdades prontas, e inquestionáveis. Leis, regras, horário para aprender sobre assuntos estéreis. De repente algumas possibilidades que antes inspirariam curiosidade tornam-se sujas, feias (olha a gíria de Matão aqui, Biel), erradas, pecaminosas, nojentas, perigosas... Começamos a ficar limitados. Aquilo que era emocionante, extasiante (o simples brincar!) torna-se ridículo, inútil. Inocência não é uma "ignorância feliz" das crianças, mas um poder que os adultos perderam.
Sem curiosidade, extingue-se a fascinação por tudo, inclusive pelas pessoas.
Penso também que a felicidade, por incrível que pareça, não é um fim, e nem um meio, mas apenas o início. Estar feliz, no ser humano (bem, na criança!) é básico. É o ponto de partida. É a força para chegar em "qualquer lugar mais interessante", seja no espaço, nas emoções ou nas idéias.
Certeza em amor é pura estupidez, mas se cobra, por orgulho de "ser amado".
Quem ainda exerce a curiosidade, aprende, enxerga a prisão psicológica que a humanidade sofre de suas próprias regras, sabe muito bem a dificuldade mortal de encontrar alguém para amar, isto é, alguém sem medo de tentar, de pensar coisas polêmicas, de abandonar dogmas e, mais importante, de se abrir, de confiar como na infância, de não se preservar e de perder os preconceitos de amor que, na certa, terá...
Amor de pai? Amor de irmão? Amor pela humanidade? Amor "Eros"?! Ah, não, não posso evitar, preciso descartar estas divisões "convenientes"... é ridículo, não se pode mais apenas "gostar" (qualquer nível de afeição) de alguém, tem que ser amor! Menos que amor é inadmissível! Então, arrumaram este calmante para os ciúmes. Amo a ti de um jeito, à ela de outro, e é tudo normal e belo. Ok, ok, vou argumentar com indivíduos assim?! Vou sim, mas num outro post, num outro dia...
Por hoje é só...
Pensamento do dia: Última cena - por Loba
Cúmplices da mágoa, teus dedos
negam-me tuas palavras.
Os meus, perdidos no oceano das saudades,
vagueiam nas lembranças de um antigo amor.
Lembro-te a música que embalou
o desejo feroz dos nossos corpos.
Devolves-me apenas o silêncio
das máscaras tecidas nas noites solitárias.
A tela amplia nossas diferenças.
Teu pincel insiste em avermelhar
o sangue que o tempo secou.
Minhas mãos tateiam cores
e os dedos incertos tatuam no corpo
a saudade que tua boca insinuou.
O desejo fibrila em minhas veias e encontra
a muralha da tua amargura.
Fecho a tela, entrego os pontos.
Deixo o corpo chorar a ausência das mãos que não conheceu
e a alma vagar cega nas lembranças de um amor que não viveu.
Emudecida pela saudade, apago as luzes, fecho as cortinas.
Outra vez tentamos encenar a mesma peça.
Mas no teatro da vida
quando as cenas se repetem, perde-se a magia.
Um beijo e um sorriso...
