As reticências e o ponto final
Eu quero ser uma tarde gris
Quero que a chuva corra sobre o rio
O rio que por ruas corre em mim
As águas que me querem levar tão longe
Ana Carolina in Uma louca tempestade
Há pessoas que são pesadas. Mas não parecem. Levamos um grande tempo para perceber que nossos ombros estão curvados por carregá-las. O mesmo tempo que levamos para descobrir que fomos mais um elo em sua corrente de histórias mal resolvidas. Correntes que as fazem arrastar os pés pela vida afora.
Então nos perguntamos como foi possível vermos sensibilidade onde havia apenas fragilidade; encanto poético onde havia apenas inconsciente egoísmo; amor pela vida onde havia apenas medo de viver. Como foi possível deitarmos em reticências e servir-lhes de muleta por tanto tempo, tornando-nos também reticentes e medrosos.
Quando esta percepção se faz clara, é hora do ponto final. Este sinalzinho gráfico que encerra uma idéia, um texto, uma crença, uma esperança, um sonho, uma obsessão. Ele é cru, decisivo e cruel. Mas imbuído de uma sinceridade única. O ponto final não engana, não cria falsas esperanças, não abre espaços para a dúvida, não gera vãs expectativas.
Ele se contrapõe claramente às reticências, esta tríade inconclusiva que por vezes engana, pela sua natureza irresponsável e inconseqüente. Embora nem sempre saibamos definir a natureza política de cada um dos pontos das reticências, sabemos com clareza a covardia que eles escondem em situações como esta. As pessoas reticentes são covardes por apatia, por insegurança, por resignação. Têm dificuldades para usar o ponto final, tendendo sempre a acrescentar a ele mais dois pontos. Por medo da responsabilidade do ato individual e solitário. Pela falta de coragem para assumir a responsabilidade de levar a vida e não apenas deixar que a vida as leve.
Por vezes, nos vemos tão envolvidos nas reticências de algumas pessoas que perdemos de vista o ponto final. Esquecemo-nos que, para voar, as forças precisam se equilibrar, o peso precisa ser dividido e o rumo traçado em sintonia de corpos e almas.
Mas é sempre hora de alijar dois pontos destas reticências, olhar o infinito e experimentar novas asas. Ainda que o vôo inicial seja doído e solitário. Porque o ponto final é também o ponto de partida. Para um novo texto, para um novo vôo, para uma nova vida.
Um beijo e um sorriso...

