Cacos, costumes e dor...
Juntei o meu rosto, transformado em cacos - pedaços caídos sobre o chão do quarto. Juntei o meu rosto, com pá e vassoura, um pouco depois do espelho quebrado. Da imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. Recolhi os pedaços de mim, espalhados sobre o tapete, antes de querer me olhar mais uma vez. Antes de não encontrar o reflexo. Juntei o meu rosto, transformado em cacos, antes do desespero de não me enxergar no meio da moldura dourada - sobrevivente pregada na parede do quarto.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma...
Doeu. Doeu como corte no dedo e álcool depois. Como caco no pé e alguns passos pra frente. Como espinho sem querer na tentação de arrancar a flor. Doeu como lábio mordido por dentro. Como dedo batido na quina. Como soco no estômago. Puxão de cabelo. Como queda de escada. Arranhão. Pancada. Doeu como fratura exposta. Inflamação. Como gelado descendo na dor de garganta. Doeu como tapa de mãe quando se é pequeno. Como soco na cara. Mão na tomada. Parto natural.
Doeu muito mais do que você imaginava. Mais do que eu imaginava.... mas a gente se acostuma... e a vida continua!
E o sol vem nascendo!
Um beijo e um sorriso...

5 comentários:
Primeiro, terei o privilégio de ser a primeira a fazer comentário...
"A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer..." "A gente se acostuma para poupar a vida"
Incrível, e constantemente é só angústia...nossos cacos que não conseguimos recolher, essa comodidade que estagna a alma...mas afinal somos dor ou amor?...certeza ou dúvida? verdade ou mentira?
Coloca tudo numa coisa só...
Beijos!
Li.....
olha eu aki!!!!!!!!!!
saudades
PS.: boas novidades pra contar
beijos
Eu não havia comentado ainda né?..vc leu para mim e não comentei aqui;como dito vc é uma "metáfora" ambulante rsrsrs
Amo a sua escrita e a maneira que expressa as suas idéias.
Beijim meu anjo.
.. e avida continua!
só pra variar vc escreve mto bem né
mardita
bjus
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