A vida vivida intensamente...

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Carta enviada de Mim Mesma para Você Mesmo:

Meu caro amigo,

Escrevo-lhe esta carta numa garrafa porque não encontrei meio melhor. Estar onde estou implica soluções drásticas. Eu, que nem sempre descubro estar à vontade comigo mesma, me descubro sozinha no mundo que demorei a construir. E aqui governo sobre Mim Mesma. Não sou mais a pessoa que você conheceu, sinto muito, pois tudo tem um fim e um começo. Até as garrafas, as de vidro, sabe, elas são retornáveis. De certa forma eu retornei para Mim Mesma. Aqui não tem garrafas retornáveis. De retornável já basta eu.

Mim Mesma é um lugar que você terá dificuldades de encontrar, por você estar tanto tempo em Você Mesmo. Lugar complicado esse que escolheu para ficar. Ouvi muito falar que aí há muitos conflitos. Que tipo de conflitos são esses? Ideológicos? Sentimentais? São daqueles que fazem chover por dias, com suas lágrimas? Tomara que não haja esgotos entupidos aí. Seria insuportável ver tudo se alagando. Eu que sofro um pouco em Mim Mesma, quando tudo se alaga aqui, porque tenho que tirar toda a água sozinha. O maior calvário é quando meu piano se molha, por causa de sua frágil madeira, que demora a secar. Sim! Tem muita melodia onde estou! Pra falar a verdade só tem isso aqui. Muitas músicas e um instrumento. Pianos não são retornáveis, por serem pesados e solitários. O piano é solitário, não suas teclas. Elas são o oposto do que habitam. Eu as entendo. Este é um instrumento tão nobre até. Já foi muito tocado por príncipes e eu brinco de música sempre com ele. De fato não sou nenhuma princesa. Por isso não estava à vontade. Por isso retornei para cá. Eu tinha muitos pensamentos maquiavélicos. Você não. Acho que em Você Mesmo deve ter algo bom que em Mim Mesma não tenha.

O que eu poderia encontrar no lugar onde você se encontra? O que tem aí em Você Mesmo? Tem muita festa? Muitas garrafas retornáveis? Tem música? Ou só tem enchente mesmo? Tipo aquelas que vimos antes de irmos embora de Nós Mesmos.

Éramos bem felizes em Nós Mesmos. Tenho lembranças agradáveis de lá. Das bebidas que tomávamos até que as garrafas ficassem pesadas demais para as nossas entorpecidas mãos! Tem garrafas aí em Você Mesmo? Acho que sim. Você as usa para tirar água da enchente? Seria de bom improviso. Mas pior que as águas tempestuosas de Nós Mesmos nunca houve. Usávamos as garrafas. Lembra? Para tirar tudo. Toda a água, todos os males, todos os vícios, mas só ficava a embriaguez. Entornada. Como as garrafas. Nos divertíamos tanto que ficávamos tontos de tanto usá-las. Nós tínhamos resistência, mas mesmo assim, às veses, era inevitável. Eu ria e as botava no engradado para retornarem. Só que da última vez eu peguei carona. Eu me deixei mudar com elas. Estou bem diferente. Estou cheia de álcool. Mereci retornar para Mim Mesma.

Tenho até meus planos maquiavélicos, amorais, para retornar a Nós Mesmos. Faltam tantos escrúpulos em mim que sou capaz de destruir tudo que está ao meu redor. Não me importo. E daria tão pouco trabalho, já que aqui é tão pequeno. Nem deve ser muito menor que Você Mesmo. Eu retornaria, com certeza, admito. Mas as garrafas não. Não as quero mais. Daqui só levarei meu piano. Ele foi a melhor coisa que já apareceu por aqui. E é para isso que na verdade lhe escrevo esta carta. Peço que me ajude a levar o piano de Mim Mesma para qualquer lugar, desde que seja bem longe de Nós Mesmos. Preciso de um lugar cuja diversão seja garantida. Lugar que me faça não pensar em Nós Mesmos. E juro também que não terá enchente, já que não haverá conflitos. Retorna-me esta carta? Siga o bom exemplo das garrafas.

Um grande abraço do sua amiga que retorna.

2 comentários:

HIRO OKADA disse...

estou com a mesma roupa que usei pra pintar meu quarto vermelho...
eu sempre estarei aqui pra tocar seu piano.. saiba.. afinar o piano não é facil.. mas sempre fica lindo depois...
noticias de Deus:
o infinito é sempre nosso amigo!

Nesga disse...

...e agora?
Alma destruída, as lágrimas restam e acabou...
só ilusão então?...

..e agora, correr rumo a que, a quem?
Se afogar então?
Se jogar do último andar?
Entrar no buraco mais profundo?
Correr num cruzamento chorando...gritando...pois o que resta?
Alimentamos tudo e agora tudo se perde...será que valeu?
....eu peço socorro..pra onde corro? por favor me respondam..
Ninguém aqui!!
O mundo vazio...e vc só, nesse vale perigoso chamado Amor.
Se atente: você só depende de você

Pra você sempre com carinho

Flávia*